Eu não sei o que acontece aqui dentro
Cada vez que surge uma ou outra
Que você pôs na sua cama antes de mim.
Só de pensar sua boca percorrendo outro corpo
Suas mãos firmes e quentes, tocando outra pele
Desperta em mim uma raiva, um terror.
O rancor de coisas não vividas, que eu não vi.
Eu sofro um sofrimento profundo de sofrer por sofrer
Sem razão, sem motivo e sem sentido
Pra você, que gozou esses prazeres todos.
Prazeres que pra mim que de tão pavorosos, desesperadores
Eu sinto queimar toda a minha alma.
Como eu queria que estivesse queimando todas elas
Aquelas que ousaram tocar você antes de mim.
(Por "aquelas" lê-se vacas, putas, vadias!)
E ainda que você lembre que eu tive minhas experiências
Que não guardei pra você aquilo pra você o que a sociedade pedia
Não muda nada o que estou sentindo, o nojo, a náusea.
É diferente. Eu não entreguei antes tudo o que poderia.
Tudo que a cada dia, dia e noite eu entrego a você
Mesmo na cama, onde você acha que não há nada mais a descobrir
Cada vez que nós estamos juntos eu percebo que no fundo eu me resguardei
Preservei algo que a hipocrisia dos homens não pode ver
Mas eu sei, você sente, ainda que não perceba
Você, que repete em mim o que fez com as outras
Eu, que toda vez que sou sua não sou a de antes, sou outra, só sua
Que nenhum outro homem jamais tocou.